"Em minha inocência e ignorância, eu atribuía a algumas pessoas o poder de liberar, produzir, fazer exercer-se e se comunicar o amor em mim e de mim. Esse amor pertencia, pois, exclusivamente a essas pessoas, ficando eu delas dependente para sempre. Se, por alguma razão, me deixassem ou não quisessem produzi-lo em mim, eu secava de amor e — o que é pior — ficava em seu lugar, na pessoa e no corpo, uma sangrenta ferida, como a de uma amputação, que não cicatrizaria jamais."
Roberto Freire, em Ame e dê vexame.
"Ouviu-se um grito agudo.Os pensamentos começaram a desmoronar devagar, escorregando morro abaixo.…Uma vez soltos, os sentimentos não voltam mais.Eles vão descendo bem de levinho, quase que imperceptivelmente. Começam a ganhar velocidade à medida em que o tempo vai passando. Ganham força pelo simples fato de terem sido soltos. E vão se transformando em enxurradas de sonhos, vontades e desejos.A avalanche invade tudo, toma conta de cada fresta, cada pedacinho incauto, desprotegido.Impossível conter. Impossível não sentir mais nada.Impossível voltar atrás."
Roubado do Carter.
"Nunca morri, nem tampouco me sinto fortalecida. Então vamos brincar de ser gente adulta, vamos nos reunir e beber. Falar de como somos crescidos, independentes, de como é sofrida a vida na cidade grande, e de como vencemos no auge da nossa pós adolescência tardia. Celebrar nossas pequenas misérias com champagne barato, flores de plástico e maconha seca. Vamos invadir nossas privacidades e nos amar pelo mesmo motivo que nos odiamos. Encontraremos conforto em antigas teorias que nos dizem o mundo em léxicos enfeitados. Brindaremos ao amor, ao tesão, ao dinheiro como se, de fato, os tivéssemos. Vamos rir de nós mesmos. Vamos rir do vizinho pelado e seu pau pequeno, das putas flácidas e desdentadas, do solitário e ranzina dono da banca de jornais. Vamos rir sem culpa. Dançaremos ao som de músicas que nos preenchem algum espaço vazio cuja existência desconhecemos. Nunca estivemos errados, nem tampouco certos. Então vamos."
"Quero o máximo - e o máximo deve ser atingido e dito com a matemática perfeiçãoda música ouvida e transposta para o profundo arrebatamento quesentimos. (...)."
"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui."
"Mas nem sempre é necessário tornar-se forte. Temos que respeitar a nossa fraqueza. Então, são lágrimas suaves, de uma tristeza legítima à qual temos direito. Elas correm devagar e quando passam pelos lábios sente-se aquele gosto salgado, límpido, produto de nossa dor mais profunda."
Clarice.
Eu estava buscando inspiração. Achei que faria um bem dividir com quem quer que fosse.